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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Almeida Garrett



O herói romântico   


Pseudónimo de João Baptista da Silva Leitão. Nasceu no Porto, em 1799 e faleceu em Lisboa, em 1854.
Foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, político. De entre a sua vasta e importante obra, destacam-se Viagens na Minha Terra (literatura de viagens), Frei Luís de Sousa (drama), Folhas Caídas (poesia) ou Romanceiro (uma colectânea de poemas narrativos da tradição oral, também chamados “romances”).
Tem o grande mérito de ser o introdutor do Romantismo em Portugal ao nível da criação textual. Foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.

Roteiro bio-bibliográfico, no sítio da Biblioteca Nacional.



A viagem de Garrett

 RTP2 JPL TVRIP





Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in Folhas Caídas





Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
 Almeida Garrett (1/6)


Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
 Almeida Garrett (2/6)



Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
 Almeida Garrett (3/6)



Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
Almeida Garrett (4/6)



Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
Almeida Garrett (5/6)



Grandes Livros - Episódio 10: "Viagens na Minha Terra",
 Almeida Garrett (6/6)


Para mais informações sobre Almeida Garrett consulta:
Projecto Vercial, a maior base de dados na Internet sobre literatura portuguesa.
C.I.T.I., Centro de investigação para tecnologias interactivas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).
DGLB, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.
Biblioteca Nacional - Bicentenário de Almeida Garrett.

Obras integrais em formato digital [pdf] na Biblioteca Digital da Porto Editora:
Outras obras digitalizadas de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional.






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Padre António Vieira


Imperador da Língua Portuguesa


Neto de avó africana, o filho primogénito de Cristóvão Vieira Ravasco e de Maria de Azevedo nasce em Lisboa, em 1608. Aos 6 anos, parte com a família para o Brasil. Num país onde a cultura e a civilização são veiculadas pelos jesuitas, o jovem estudante ingressa aos 15 anos para a Companhia de Jesus. É ordenado sacerdote em 1635. Ensina então Teologia no Colégio Baiano. A partir de 1638, prega alguns dos seus mais notáveis sermões. Em 1641, regressa a Portugal, onde cresce a sua notoriedade como orador. Tendo já sido nomeado pregador régio, Padre António Vieira é ainda destacado para várias missões diplomáticas na Holanda, França e Itália. Em 1653, regressa ao Brasil como missionário, envolvendo-se no conflito entre colonos e os jesuitas que condenam a exploração dos indígenas. De novo em Portugal, e sem o seu protetor, D. João IV, entretanto falecido, acaba por ser preso pela Inquisição sob a acusação de defender os judeus. Alterando-se a situação política em Portugal, Padre António Vieira é amnistiado. Desloca-se então, como diplomata, a Roma, onde continua a defender os judeus e a granjear reputação pelos seus elevados dotes de orador.  De regresso a Lisboa, constata amargamente que a perseguição aos cristãos-novos se mantém. Assim, e tendo perdido os apoios políticos na capital, retira-se definitavamente para a Baía, onde ocupa o cargo de Visitador Geral dos Jesuítas  no Brasil, até 1691. Falece a 18 de julho de 1697, aos 89 anos.

Para contextualizares a vida e obra de Padre António Vieira consulta o sítio das Vidas Lusófonas onde encontrarás, entre outros dados, as respetivas tábuas cronológicas.




Grandes Livros - Episódio 6: "Sermão de Santo António aos Peixes",
Padre António Vieira












Sermão de Stº António aos Peixes, obra integral em formato digital [pdf].

Bibliografia ativa no sítio da DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas).





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Eça de Queirós



A Poesia não se Inventou para Cantar o Amor
Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'


Eça de Queirós por Rafael Bordalo Pinheiro

Nasce na Póvoa do Varzim, no dia 25 de novembro de 1845. Filho natural do juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, então delegado do procurador régio em Ponte de Lima, e de Carolina Augusta Pereira de Eça, residente em Viana do Castelo - foi entregue aos cuidados de uma ama em Vila do Conde, em cuja igreja matriz foi batizado a 1 de dezembro.
Continuação da biografia de Eça de Queirós, no sítio da Biblioteca Nacional.


Obras digitalizadas de Eça de Queirós na BN.

"Fradique Mendes - A correspondência de uma abstracção: Novos manuscritos" no sítio da Biblioteca Nacional.

Os Maias, obra integral em formato digital [pdf] na Biblioteca Digital da Porto Editora.

Galeria de Personagens Queirosianas a consultar no sítio do CITI.

Fundação Eça de Queirós.








No estado em que se encontra o País, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As «Farpas» são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos ao serviço da revolução.
                 Carta a João Penha, Jun. 1871

As Farpas
Capa do vol. 1 (Maio de 1871)
BN PP. 7311 P.













A «crise» é a condição quase regular da Europa. E raro se tem apresentado o momento em que um homem, derramando os olhos em redor, não julgue ver a máquina a desconjuntar-se, e tudo perecendo, mesmo o que é imperecível - a virtude e o espírito.

In «A Europa», 1888




«A Europa»
Eça de Queirós
In O Repórter, nº 79 (20 Mar.), Lisboa 1888, p. [1]
BN J. 577 G.





 

  

 

Grandes Livros - Episódio 1: "Os Maias", Eça de Queirós (Parte 1/5)


 



Grandes Livros - Episódio 1: "Os Maias", Eça de Queirós (Parte 2/5)


 





Grandes Livros -Episódio 1: "Os Maias", Eça de Queirós (Parte 3/5)
  
 



Grandes Livros - Episódio 1: "Os Maias", Eça de Queirós (Parte 4/5)
 
 
 


Grandes Livros - Episódio 1: "Os Maias", Eça de Queirós (Parte 5/5)
  




Bibliografia ativa

O Mistério da Estrada de Sintra (romance) (em colaboração com Ramalho Ortigão), 1870 ; 2000
As farpas : chronica mensal da politica das letras e dos costumes (crónicas) (em colaboração com Ramalho Ortigão), 1871 ; 2004
O Crime do Padre Amaro (romance), 1875 ; 2000
O Primo Basílio (romance), 1878 ; 2001
O Mandarim (romance), 1880 ; 2003
A Relíquia (romance), 1887 ; 2003
Os Maias (romance), 1888 ; 2003
Uma Campanha Alegre (crónicas), 1890 ; 1988
Almanaque Enciclopédico (divulgação), 1895 ; 2001
A Correspondência de Fradique Mendes (romance), 1900 ; 1999
A Ilustre Casa de Ramires (romance), 1900 ; 2004
A Cidade e as Serras (romance), 1901 ; 2001

Continuação da bibliografia ativa no sítio da Direção-Geral do Livro e da Bibliotecas (DGLB).


Bibliografia passiva  na DGLB.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

D. Dinis, o Rei Poeta




Neto de Afonso X e filho de Afonso III. Subiu ao trono em 1279 e reinou durante 46 anos. Fundou a Universidade Portuguesa em Lisboa (1/III/1290). Transferida para Coimbra em 1308. Determinou o uso da "língua vulgar" nos documentos oficiais, em detrimento da latina. Mandou traduzir as Sete Partidas e a Crónica Geral de Espanha, além de obras árabes de história e geografia. Do rei trovador restam 138 cantigas: 76 de amor, 82 de amigo e 10 de mal-dizer.

Por ocasião dos 750 anos do nascimento do Rei D. Dinis, recomenda-se a visita da exposição Dionisivs Rex -Documentos de D. Dinis na Torre do Tombo. Nela descobrimos alguns testemunhos  que nos permitem revisitar o reinado próspero e plurifacetado de uma das figuras régias mais bem sucedidas da história de Portugal .




 Notação musical de cantigas de amor de D. Dinis

Fragmento descoberto pelo Prof. Harvey L. Sharrer, em 1990



Segundo o musicólogo Manuel Pedro Ferreira, este fragmento, "transmite-nos canções de um dos mais prestigiados reis de Portugal, que foi simultaneamente um dos mais famosos trovadores galego-portugueseses; foi escrito mais de duzentos anos antes das cópias através das quais os poemas nos eram conhecidos; permite vislumbrar as caracteríticas do cancioneiro perdido que em tempos integrou; e, sobretudo, inclui notação musical - a primeira que nos aparece em cantigas d' amor - o que faz dele o mais antigo documento conhecido com música profana de origem portuguesa."


Descobre mais na Torre do Tombo.


" O que nunca cuidei a dizer"

O que nunca cuidei a dizer,
com gram coita, senhor, vo-lo direi,
porque me vejo já por vós morrer
(ca sabedes que nunca vos falei
de como me matava voss´amor):
ca sabe Deus bem que doutra senhor,
que eu nom havia, mi vos chamei.
E tod´aquesto mi fez(o) fazer
o mui gram medo que eu de vós hei,
e, des i, por vos dar a entender
que por outra morria ( de que hei,
bem sabe Deus, mui pequeno pavor);
e des hoimais, fremosa mià senhor,
se me matardes, bem vo-lo busquei.
E creede que have(er)ei prazer
de me matardes, pois eu certo sei
que esso pouco que hei de viver
que nem-um prazer nunca veerei;
e, porque sõo esto sabedor,
se mi quiserdes dar morte, senhor,
por gram mercee (eu) vo-lo terrei.


 O que vos nunca cuidei a dizer






Base de dados disponibilizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Contém:
  • a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses;
  • as respetivas imagens dos manuscritos;
  • a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cesário Verde


UM PINTOR NASCIDO POETA

Retrato de Cesário Verde escrito por Fialho de Almeida


Joaquim Cesário Verde nasce, em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855. O seu pai possui uma loja na capital e uma quinta em Linda-a-Pastora, o que leva o jovem a crescer entre os espaços citadino e rural.
Cesário desenvolve a sua verve poética no intervalo da actividade comercial que exerce no negócio familiar. Em vida, as suas publicações raramente colhem crítica favorável. Sucumbindo à doença que vitimara os seus irmãos, morre, tuberculoso, aos 31 anos.
Cesário Verde deixa-nos um retrato das últimas décadas da Lisboa oitocentista e da realidade do meio rural, num mundo votado à extinção perante o avanço da industrialização.


Consulta o sítio web da Biblioteca Nacional criado por ocasião dos 125 anos da morte do autor: Cesário Verde, 1855-1886, na Vida e na Obra






       
SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
-------------------------------------------------
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

                                               (EXCERTO)




Capa da obra "O Livro de Cesário Verde" publicada por Silva Pinto.
Retrato do autor por Columbano.

Descarrega a primeira edição da obra "O livro de Cesário Verde" digitalizada pela Biblioteca Nacional .





DE TARDE

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!




Poema declamado por Luís Gaspar (www.estudioraposa.com), conforme apresentado no Miradouro de Poesia existente no Espaço da Presidência da República no Second Life.



CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!



Adaptação por Noé Touraldo; música de Amontron; com Pedro Ribeiro e Ana Machado - 2009

*Menção honrosa no Festival Bibliofilmes, 2009




LÚBRICA

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!



Cantor: Camané. Música: Joaquim Campos (Fado Alexandrino Campo).






Bibliografia passiva

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Quatre poetes portugais: Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Paris: Centre Cultural Portugais, 1979
Atkinson, Dorothy M.. Notas sobre a estilystica de Cesário Verde, Lisboa: Tip. da Editorial Império, 1968
Buescu, Helena Carvalhão; Morão, Paula. Cesário Verde : visões de artista, Porto: Campo das Letras, 2007.
Continuação na Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.



sábado, 4 de junho de 2011

José Saramago

De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz
 in "Discursos de Estocolmo" 



Autobiografia

Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago...
(...)
Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais "habilitações literárias" (expressão comum então...) que ler, escrever e contar. (...). Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias.
(...)
Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura. Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter "antológico", que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.(...)

José Saramago

Continuação da autobiografia de Saramago no sítio da Fundação José Saramago.



A Maior Flor do Mundo





Sobre literatura, compromisso e transformação social

(...) Em que ficamos, então? Se as sociedades não se deixam transformar pela literatura, ainda que esta, numa ou noutra ocasiões, possa ter tido nas sociedades alguma superficial influência, se, pelo contrário, é a literatura a que se encontra permanentemente assediada por sociedades, como são estas de hoje, que não lhe exigem mais do que as fáceis variantes duma mesma anestesia do espírito que se chamam frivolidade e brutalidade – como poderemos nós, sem esquecer as lições do passado e as insuficiências de uma reflexão dicotómica que se limitaria a fazer-nos viajar entre a hipótese, nunca satisfatoriamente verificada, de uma literatura agente de transformações sociais, e a evidência de uma literatura, outra, esta, que parece não ser capaz de fazer mais do que recolher os destroços e enterrar as vítimas das batalhas sociais –, como poderemos nós, insisto, ainda que provocando a troça das futilidades mundanas e o escárnio do senhores do mundo, voltar a um debate sobre literatura e compromisso, sem parecer que estamos falando de restos fósseis?
Espero que no futuro próximo não venham a faltar respostas a esta pergunta e que cada uma delas, ou todas juntas, possam fazer-nos sair da dolorosa e resignada paralisia de pensamento e acção em que parecemos comprazer-nos. Por minha parte, limito-me a propor, sem mais rodeios, que regressemos rapidamente ao Autor, a essa concreta figura de homem ou de mulher que está por trás dos livros e sem a qual a literatura seria coisa nenhuma, não para que ele ou ela nos digam como foi que escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais certo é não o saberem eles próprios), não para que nos eduquem e guiem com as suas lições (que muitas vezes são os primeiros a não seguir), mas simplesmente para que nos digam quem são, na sociedade que, eles e nós, somos, para que se mostrem todos os dias como cidadãos deste presente, mesmo que, como escritores, creiam estar trabalhando para o futuro. O problema não está em, supostamente, se terem extinguido as razões e causas de ordem social, ideológica ou política que, com resultados estéticos tão variáveis quanto as intenções, levaram ao que se chamou literatura de compromisso, no sentido moderno da expressão; o problema está, mais cruamente, em que o escritor, regra geral, deixou de comprometer-se, e em que muitas das teorizações em que hoje nos deixamos envolver não têm outra finalidade que constituir-se como escapatórias intelectuais, modos de ocultar, aos nossos próprios olhos, a má consciência e o mal-estar de um grupo de pessoas – os escritores – que, depois de se terem olhado a si mesmos, durante muito tempo, como luz divina e farol do mundo, acrescentam agora, à escuridão intrínseca do acto criador, as trevas da renúncia e da abdicação cívicas.
Depois de morto, o escritor será julgado segundo aquilo que fez. Reivindiquemos, enquanto ele estiver vivo, o direito a julgá-lo também por aquilo que é.

José Saramago
(Excerto do colóquio em Málaga, publicado na Revista Quimera)


                 
Romances:
Terra do pecado (romance), 1947; 2004
Manual de pintura e caligrafia (romance), 1976; 2006
Levantado do chão (romance), 1980 ; 2008
Memorial do convento (romance), 1982 ; 2009
O ano da morte de Ricardo Reis (romance), 1984 ; 2009
A jangada de pedra (romance), 1986 ; 2010
História do cerco de Lisboa (romance), 1989 ; 2006
O Evangelho segundo Jesus Cristo (romance), 1992 ; 2009
Ensaio sobre a cegueira (romance), 1995 ; 2009
Todos os nomes (romance), 1997 ; 2007
A caverna (romance), 2000 ; 2001
O homem duplicado (romance), 2002 ; 2003
Ensaio sobre a lucidez (romance), 2004
As intermitências da morte (romance), 2005 A viagem do elefante (romance), 2008;Caim (romance), 2009 

  • Apresentação do Prémio Nobel
  • Reacções à escolha deste autor

Discursos de Estocolmo proferidos na cerimónia da entrega do Prémio Nobel de Literatura, em 1998.
A Clarabóia - romance inédito (excerto)

Sítio web da Biblioteca Nacional dedicado ao escritor, onde se encontram, digitalizados, textos dactiloscritos com correcções do autor.



José Saramago
[Azinhaga/Golegã, 1922 - Lanzarote/ilhas Canárias/Espanha, 2010]






segunda-feira, 23 de maio de 2011

Agustina Bessa-Luís


OS MUNDOS FECHADOS DE AGUSTINA


Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã, Amarante (região do Douro), em 1922. A sua infância e adolescência foram passadas nesta região, cuja ambiência marcará fortemente a obra da escritora. Estreou-se como romancista em 1948 com a novela Mundo Fechado, cujo título actua como que uma espécie de definição de toda a sua produção literária e do próprio mundo de Agustina – na verdade, a ambiência das suas obras vive de «mundos fechados», bem como a sua própria escrita se encontra «fechada» a qualquer tentativa de contextualização, em termos de correntes, na história da literatura portuguesa. Manteve, desde então, um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas, contando até ao momento com mais de meia centena de obras. Tem representado as letras portuguesas em numerosos colóquios e encontros internacionais e realizado conferências em universidades um pouco por todo o mundo...
Centro de Documentação de Autores Portugueses
05/2004

Continuação da biografia de Agustina no sítio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.





PARA VILA-MEà

Felizes os que chegam a uma idade longa com as recordações dos primeiros anos. Porque nada melhor que a companhia dessas memórias douradas para nos fazer acreditar na imortalidade. Somos imortais pelo que recordamos e não pelo que vivemos.
Esta terra onde nasci é o melhor caminho para as minhas recordações. Daqui se parte para o lugar do Barral onde teve casa a minha família materna com cinco filhas, sendo uma delas Justina, minha avó de que bastante falei nos meus  livros. Do lugar do Barral à casa do Paço era mau caminho, entre campos de milho e ribanceiras, onde, no verão, havia cachos de amoras. O lugar do Paço foi uma escola mais importante do que a das letras. A gente que lá vivia despertou em mim a expectativa pelo extraordinário. Eu ouvia as histórias como se fossem retratos do mundo ainda por descobrir e, naquele trono que era o preguiceiro, minhas tias falavam dos sete pecados mortais como se fossem gente viva e pronta a bater à porta. Não falavam com horror nem consentimento. Eu aprendi assim que não há senão fraquezas e pactos melancólicos com a tentação. Para ver que há beleza no mundo bastava descer até ao tanque, quem vai para a eira, e reparar que nasciam as primeiras túlipas. Bastava ver as ovelhas com os balidos mansos, ao entardecer, ou ver o leite acabado de mungir, tão branco e espumoso como uma bebida espirituosa. Tudo isso me fez escritora, tudo me caiu no coração como um sino de prata que não pára de tinir como se o  vento o bulisse.
Vila-Meã em dia de feira, com os ourives, os vendedores de leitões que de tão cor-de-rosa pareciam pintados, era para mim uma peregrinação, com minha tia adiante segurando o guarda-sol preto e com aquele sorriso que lhe descobria um dente desacertado. Ela gostava de falar, falava sem parar ao sol de Agosto como se estivesse no parque mais fresco, no bosque de Viena pelo menos. Agora estou a parecer-me com ela, sou capaz de tomar o rumo duma conversa e não o largar, horas a fio. É extraordinário como temos em nós tantas heranças e vamos gastando umas e outras fazendo com que os nossos parentes passem por nós, acenando ao passar.
Nasci, como sabem, numa casa aqui perto. Nasci num domingo, o que é bom presságio. Nos países nórdicos, quem nasce ao dominho será capaz de prever o futuro. Não me agradaria ter esse dom, porque adivinhar não é saber; sobretudo perde-se a fantasia da curiosidade e da teia romanesca que é matéria do escritor.
A Sibila, essa sim, gostava de ser adivinha. Brincava a prever as coisas, raramente se enganava. Tinha orgulho nessa esperteza que alguns povos desenvolvem com a atenção de observar tudo o que os rodeia. Observam como quem colhe plantas para fazer medicina caseira; a tudo dão importância e tudo em mantido em sigilo que é a chave da persuasão.
Eu sinto grande vaidade na honra que me fazem hoje. Vaidade porque de algum modo a merecia; mas não tanto que me esqueça de devolver à minha terra o que a minha terra me deu - a realidade de que se alimenta a imaginação. Agradeço esta bonita festa e a todos que nela participaram. Que ela nos deixe a todos uma lembrança amável que se perpetuará na história fizermos, mais dia, menos dia. Muito obrigada.

Porto, 30 de Dezembro de 2002       

Agustina Bessa-Luís, in "O chapéu das fitas a voar"







domingo, 1 de maio de 2011

O escritor veio à escola!





E foi assim que, no passado dia 5 de Abril, ao vivo, a cores e sem rede, descobrimos o poder encantatório das palavras de José Luís Peixoto. Fazendo-nos rir, sonhar e reflectir com o seu discurso torrencial – “se quiserem, digam só uma palavra, tipo… “detergente” e eu falo, falo, falo”- foi entrelaçando, com simplicidade e clareza, questões tão diversas como a “Ars Poetica” de Horácio, o seu primeiro beijo, as ambições e o desalento dos jovens, a morte, a efemeridade da fama, a crença na existência de palavras mágicas, quando era menino, palavras a inventar, “até que alguma tivesse um efeito”.
Com o à vontade de quem está habituado a estas andanças pelas escolas do nosso país e a generosidade de quem pretende desmistificar a figura do escritor, foi contando a sua juventude em Galveias, nessa vila alentejana onde diz tudo ter começado, sem deixar entrever o porvir. E como bom comunicador, que faz jus ao seu conceito de escritor, fez do seu o nosso espanto.
Quanto à simpatia revelada nesta tarde primaveril, fica bem patente nos trechos da gravação que seguidamente apresentamos.